Paraíba é um destino hospitaleiro e tem um mercado imenso para trabalhar

O workshop “Hospitalidade no Turismo”, que aconteceu no sábado (15) no salão circular do Centro de Convenções Raymundo Asfora, no Garden Hotel, em Campina Grande, reforçou a necessidade das pessoas que trabalham no segmento turístico de entender que a palavra “hospitalidade” está cada vez mais fazendo a diferença entre o sucesso e o insucesso. O evento foi organizado pela empresa Plurall Eventos Criativos.

A palestrante Andrea Nakane revelou que o Brasil precisa trabalhar melhor o fator de hospitalidade e que em alguns lugares não encontra esse fator claramente por conta de várias circunstâncias. Nakane é sócia-diretora da Mestres da Hospitalidade e tem expertise em Inteligência Estrategista em Eventos Corporativos, Cerimonial e Protocolo e Capacitação do Talento Humano na área da Hospitalidade. A palestra deve abordou o tema “A diferença entre receber e surpreender”.

Nakane destacou Gramado, nas Serras Gaúchas, como um excelente exemplo a ser seguido como um projeto de turismo de sucesso no Brasil, e que a Paraíba tem um mercado imenso para ser trabalhado, já que tem a vocação cultural de ser um destino muito acolhedor. A jornalista disse que até mesmo empresas que não têm relação com as atividades do turismo têm investido na hospitalidade, na tentativa de quebrar paradigmas de que fábrica é um ambiente frio e sem sentimento.

Planejamento. Essa foi outra palavra destacada por Nakene, principalmente no momento de decidir em investir em alguma atividade. É preciso ter um norte, saber para onde vai e, por isso, sem planejamento na área de eventos, por exemplo, existe grande probabilidade do investimento dar errado, fracassar.

Ler a entrevista na íntegra:

Hospitalidade no Brasil
O Brasil está na seara entre a escola britânica brasileira. Essa brasilidade corresponde a hospitalidade, porém, ela precisa ser trabalhada, ela precisa ser profissional no que diz respeito a dosá-la. Como eu falei, tudo em excesso é bastante delicado, porque pode ser prejudicial nos negócios. Então, muitas vezes a gente tem isso de forma nata, mas totalmente desequilibrada. Em alguns rincões Brasil afora a gente nem encontra a real hospitalidade brasileira, justamente porque a gente não a oferece às pessoas que trabalham com a gente. Então, fica muito difícil elas passarem algo que elas não sentem, que não acreditam, e, muitas vezes, não vivenciaram.

Gramado
Gramado é um exemplo de um projeto turístico que deu muito certo e que continuamente vem se renovando, vem se transformando. Eles não têm um único evento na cidade, eles têm um calendário de eventos, trabalham com a identidade cultural. Você tem toda a questão da migração europeia que identificaram como algo que por si só já é um atrativo. Você tem o turismo colocado na pauta das diretrizes curriculares na Educação desde o ensino fundamental, então, isso faz toda a diferença. A própria população percebe o turista não como um estranho, como um intruso, mas como alguém que é importante para a cidade, que vai dar retorno a ela, que vai gerar melhor qualidade de vida. Então, Gramado, sem dúvida nenhuma, é um grande benchmarking. Toda cidade que quer se dar bem no turismo, deveria estudar e adaptar o modelo de Gramado a seu próprio destino.

Aspiração profissional
Hoje a gente vê a hospitalidade cada vez mais ganhando muito mais força em várias áreas. A própria questão da saúde, que quer buscar essa relação mais humanista, tem já setores que trabalham com a introdução da hospitalidade, até a própria indústria. Eu sai da hotelaria e fui trabalhar numa indústria de celulose e papel, porque eles queriam tirar a impressão equivocada que o chão de fábrica é árido, algo sem ter calor humano. Então, você vê que a hospitalidade tem uma área de crescimento extrapolando a área em que ela tem maior acolhimento, que é a área da cadeia turística.

Comandante Rolim
O Rolim (comandante da TAM Linhas Aéreas, atualmente a Latam) foi um grande empresário e com uma visão única, que colocou a característica de serviço em companhias aéreas que ainda não existia no Brasil, e diz que não fez nada. O tapete vermelho era dois em um, que era para solucionar a questão do tempo de limpeza, e ele conseguiu criar um símbolo de nobreza, que você é um vip. Ele foi muito sagaz, muito esperto, e conseguiu revolucionar. Pena que com a partida dele (morto em um acidente de helicóptero em 8 de junho de 2001) a gente não tenha a continuidade. Hoje a Latam é irreconhecível e a gente brinca que o comandante Rolim deva estar muito triste de onde ela esteja, porque foi desconfigurada completamente aquela essência, desconstruiu totalmente aquele trabalho. Então, na questão que você tem em um determinado momento uma falha, um deslize, se você tem uma construção muito fortalecida com bom atendimento, com uma tarifa justa, uma abertura para que justamente você se sinta ouvido, você seja rapidamente atendido, mesmo que haja uma falha não vai, de forma alguma, gerar uma ruptura total da relação, até porque você já vai ter colocado a confiança nessa relação e você vai dar uma segunda chance. Então, a última impressão não é a que fica, geralmente, a que fica é a primeira, por isso, desde o primeiro momento você tem que ser muito assertivo. A última pode não ter sido nem a melhor, mas ela está baseada numa continuidade e mesmo que ela não tenha sido muito bacana ela vai conseguir ser reincorporada em uma ação que vai demandar em uma segunda chance.

A Paraíba
A Paraíba é hospitaleira. Já vim aqui algumas vezes e daqui a pouco vou me tornar embaixadora da Paraíba. (de Campina Grande – brincadeira do empresário Antônio Jatobá, conselheiro vitalício do Paraíba Convention Bureau de Campina Grande). Mas Campina Grande está inserida. Eu acredito muito porque tem uma questão que está mesclada com a autenticidade, uma característica de que é um povo muito simples, e que na sua simplicidade faz de tudo para receber bem. Isso a gente sente, a gente percebe essa força de vontade, então, por si só já é um destino que, culturalmente, não precisa nem falar, é muito rico e que tem essa riqueza baseada na sua gente, no seu povo. E quando a gente fala em humanização vocês estão com a tapioca e o queijo, e ainda a água ardente, a cachaça, prontos para trabalhar. Há um mercado imenso para vocês trabalharem. A história de vocês terem um livro com várias experiências é fantástico. Você pode passar 35 dias aqui tendo experiências diferentes que hoje quem está nos grandes centros urbanos está muito longe de sua realidade. Hoje tem crianças que acham que o leite vem na caixinha, e quando olham a ordenha de uma vaca até se assustam, e isso acaba (as experiências) sendo algo muito rico, até na construção e no desenvolvimento das pessoas, resgatar esse olhar mais interiorano, da simplicidade. É aquela história, a gente está muito tecnológico, a gente o precisa colocar os pés no chão, literalmente, olhar as estrelas e não ficar somente vendo fotos. O legal é ver ao vivo e colorido.

Planejamento
O planejamento talvez seja o maior ponto de nossa fragilidade na maioria dos negócios. Eu vou empreender, então você sai com todo gás, vai fazer e acontecer. Não, você tem que parar e identificar: onde eu quero ir, como é que eu vou chegar até lá, e isso passa muitas vezes desapercebido, feito de um forma muito pouco profissional, amadora até demais. Então, para você ser hospitaleiro nas condições que a gente tem, tem que saber o processo, saber como se planejar, como construir, como identificar aquilo que vai ser a marca, o atributo que efetivamente vai a fazer com que eu aflore a percepção do outro. Planejamento, e eu sou muito suspeita nisso, porque, quem trabalha com evento trabalha com planejamento o tempo todo. Planejamento é essencial senão a gente fica perdido, sem saber para onde vai. Você fica literalmente sem eira nem beira como agente diz.

Hospitalidade para o fortalecimento do destino
Total. Apesar de a gente ter alguns cases diferenciados, como a gente citou, a França e tudo, você ser acolhido em um ambiente que tem muitos atrativos sejam naturais ou não, o elemento humano irá fazer a diferença. Como aquele guia vai me apresentar, vai fazer a contação da história, é totalmente diferente do que você receber ali um papel frio com os principais pontos históricos. Te vira. Eu tive a oportunidade de visitar o Museu de Arte Popular da Paraíba, em Campina Grande e, infelizmente, o museu estava sem ninguém, vazio. Eu tinha um museu só para mim, nunca havia passado por essa experiência. E as pessoas que interagiram comigo, nossa, me deram uma aula, eu fiquei três horas lá, no museu, e eu achei incrível por tudo, a amabilidade, a história que eles contaram. Eu poderia te ido, não ter utilizado esse tipo de apoio e certamente a minha visita poderia não ter sido tão rica. Lá, fez toda a diferença a presença dos condutores que me deram muito mais do que a simples foto, a imagem, objetos… A história e a oralidade por mais do que a nossa comunicação esteja super avançada, a relação humana é a que nos une e trabalha com a questão da emoção. Eu acredito sim que a hospitalidade inserida nesse contexto por meio das pessoas só vem aflorar ainda mais a potencialidade de um destino, de uma localidade.

Fábio Cardoso, com colaboração de Alessandra Lontra

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