Cremosinho: sem heróis e sem vilões

O incidente entre um vendedor de cremosinho (um tipo de sorvete de iogurte) e um morador de um prédio no bairro de Manaíra, em João Pessoa, ocorrido na terça-feira (01), é um exemplo de intolerância e, que poderia ser traduzido também como “um dia de fúria”.

Ainda na noite da terça-feira, feriado do Dia do Trabalho, vi na televisão o incidente. Um ambulante passa em uma rua anunciando aos gritos o produto que vende, um morador de um prédio desce do apartamento onde reside e, aos gritos, pede para que o vendedor pare de gritar, chegando inclusive a ameaçá-lo fisicamente. Não obteve êxito porque outros moradores da vizinhança impediram.

A imensa maioria da população, assim que acordou nesta quarta-feira (02), passou a tomar conhecimento do incidente, mas de uma forma como se o morador do prédio fosse um verdadeiro vilão.

Afinal, um trabalhador num feriado, buscando vender um produto para o sustento de sua família, é visto sendo ameaçado porque fazia barulho, é prato cheio para a imprensa sensacionalista e que, de praxe, não procura ouvir o outro lado, obter audiência – o que realmente aconteceu.

O problema, como sempre, é que, ao só ouvir o vendedor se fazendo de vítima – e o é -, criou um monstro – que não realidade não o é – e que foi massacrado nas redes sociais, sem defesa, sem piedade.

Explicando melhor para o leitor, e disso posso falar porque tinha conhecimento e procurei confirmar, a fúria do morador contra o vendedor foi resultado de uma tentativa de negociação antiga e que não teve êxito.

O morador tem um filho de quase quatro anos de idade que tem autismo. Os autistas, para quem não têm conhecimento, tem muita sensibilidade auditiva e que traz perturbação nervosa. Todos os dias quando o vendedor passa gritando o seu produto pelo local, a criança se debate em desespero.

Aí vem o simples questionamento: por que o vendedor não respeita a dor desse pai e, por alguns metros, evitar gritar…  Se coloque no lugar não só do pai dessa criança, mas de toda a sua família.

Quem tem em sua família alguma pessoa autista sabe perfeitamente do que estamos falando.

O incidente foi parar na delegacia e certamente não dará em nada, mas é preciso que todos façam uma reflexão sobre algumas máximas que podem estar totalmente equivocadas. Não se toma partido sem conhecer todos os lados. A imprensa não pode emitir juízo de valor sem conhecer todos os lados. Isso é um risco tremendo.

Nesse caso, em especial, nem o vendedor é totalmente vítima e nem herói, muito menos o morador do prédio é um bandido ou um vilão que tentam criar. Claro, ele errou, mas todos nós temos aquele maldito dia de fúria. Isso sim é que temos que analisar e tomar cuidado.

Fábio Cardoso

 

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